{"id":202,"date":"2011-04-27T00:10:46","date_gmt":"2011-04-27T03:10:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.maisbn.com\/portal\/?p=202"},"modified":"2012-07-13T00:17:45","modified_gmt":"2012-07-13T03:17:45","slug":"mon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.maisbn.com\/portal\/2011\/04\/mon\/","title":{"rendered":"MON"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o me perguntem o porqu\u00ea do apelido de Mon. Sempre me questionei se se tratava de monstro ou monsenhor, por\u00e9m jamais obtive a resposta para a minha d\u00favida infantil. O fato \u00e9 que Mon existia de verdade, em carne e osso, muito mais carne do que osso. Andar jocoso, parecia n\u00e3o suportar o peso mal distribu\u00eddo dos seus quase cem quilos de fei\u00fara. Silhueta inconfund\u00edvel, sorriso banguela com um \u00fanico dente canino \u00e0 mostra, dava-lhe um aspecto monstruoso de olhar melanc\u00f3lico.<br \/>\nApesar do aspecto dantesco, Mon era d\u00f3cil e cort\u00eas com as fam\u00edlias com as quais trabalhava. Seu labor di\u00e1rio era bater bomba de \u00eambolo para encher as caixas d\u2019\u00e1gua, em dezenas de resid\u00eancias, naqueles tempos em que \u00e1gua encanada era privil\u00e9gio de poucos. Conhecia, de perto, a culin\u00e1ria de fam\u00edlias tradicionais, pela sua maratona que come\u00e7ava cedo. O desjejum, servido pelos Rocha, Monteiro, ou Lapa, o deixava pronto para \u201ctocar\u201d a bomba, fazendo subir e descer ritmadamente o dorso suado, acompanhando o movimento do bra\u00e7o da bomba. Paternostros, Guerrieris e Magnavitas eram respons\u00e1veis pelo lauto almo\u00e7o que o deixava adormecido sob uma mangueira frondosa qualquer.<br \/>\nA noite chegava e ele se tornava convidado pelos Bandeiras, Melos ou Elias para aquela sopa reconfortante com duas bisnagas de p\u00e3o \u2013 \u00eata redund\u00e2ncia&#8230; &#8211; da padaria de Mario Gama. Seu sono era entrecortado por sonhos e pesadelos com os \u201cpestinhas\u201d que o atormentavam pela sua dislexia, sua voz gutural e seu dente frontal cravado no maxilar, dando-lhe um aspecto grotesco. V\u00ea-lo mastigar um naco de carne do mal assado, ao meio-dia era c\u00f4mico e penoso, porque seu \u00fanico dente respons\u00e1vel pela mastiga\u00e7\u00e3o n\u00e3o correspondia \u00e0 expectativa de sua gula.<br \/>\nEra prazeroso para Mon, pegar carona nos poucos ve\u00edculos que circulavam em nossas ruas arenosas, pra servir de \u201ctra\u00e7\u00e3o\u201d, com sua for\u00e7a bruta, quando dos atolamentos eventuais dos autom\u00f3veis. Certo dia, a bordo do Jeep de Luiz Carneiro, Mon foi v\u00edtima em um acidente inusitado, em colis\u00e3o frontal com a pickup Toyota de Ahiah, dirgida por Raimundo Gago, no cruzamento da J.J.Seabra com a Cel. Jos\u00e9 Gomes. Mon recebeu alguns agafes1 na cabe\u00e7a, fez gra\u00e7a para Dr. Pinto e como j\u00e1 noite, lhe disse que ficaria para o jantar.<br \/>\nOs \u201cpestinhas\u201d da \u00e9poca, que o atormentavam, hoje senhores cinq\u00fcent\u00f5es, o reverenciam pelo seu jeito manso de viver e desapareceu com a mesma dignidade que viveu entre n\u00f3s, simples mortais.<br \/>\n1-agafes \u2013 pontos met\u00e1licos para suturar cortes profundos na pele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o me perguntem o porqu\u00ea do apelido de Mon. Sempre me questionei se se tratava de monstro ou monsenhor, por\u00e9m jamais obtive a resposta para a minha d\u00favida infantil. O fato \u00e9 que Mon existia de verdade, em carne e osso, muito mais carne do que osso. Andar jocoso, parecia n\u00e3o suportar o peso mal [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12,4],"tags":[],"class_list":["post-202","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-causos-da-terra","category-colunas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.maisbn.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/202","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.maisbn.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.maisbn.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.maisbn.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.maisbn.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=202"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.maisbn.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/202\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.maisbn.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=202"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.maisbn.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=202"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.maisbn.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=202"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}